Autor: editor

  • A fotografia inaugura os mass media visuais quando o retrato individual é substituído pelo retrato coletivo

    Freund


    O SURGIMENTO

    Fruto da pesquisa de Niépce e Daguerre em 1839, passa a ser possível a fixação da imagem através do processo da daguerreotipia. Contudo foram precisos 30 anos até a fotografia passar a ser aproveitada pelos jornais

    A fotografia começou por ser encarada como um registo visual da verdade mas com a profissionalização e massificação passou a ser só  um registo do credível porque já no final do século XIX existem fotomanipulações.

    O uso de fotografias nos jornais esbarrou em dificuldades técnicas para a sua reprodução, pelo que as fotografias eram usadas como modelo para as gravuras publicadas nos jornais. Foi o que aconteceu com m dos trabalhos fundadores do fotojornalismo, em 1880 quando Jacob Riis fotografou as péssimas condições de vida dos emigrantes em Nova Iorque. Riis utilizou flashes de magnésio para fotografar à noite, contudo as fotografias foram publicadas como gravuras.

    Em 1860 surgiram os primeiros processos de reprodução fotomecânica a partir de uma matriz produzida fotograficamente, mas a fotografia só se torna comum na imprensa a partir de 1892 com o desenvolvimento da autopia, este processo que também é conhecido como halftone (meio-tom) permitia a impressão de diferentes tonalidades de cinzento ao invés de uma simples impressão a preto e branco como acontecia anteriormente.

    Com o surgimento da autopia a xilografia e a litografia foram abandonados enquanto processo de impressão de fotografias, mas esta mudança não foi imediata devido aos custos da modificação dos sistemas de impressão apesar de a autopia permitir a redução dos custos de produção de uma página de 300 para 20 dólares.

    É em 1898 com a Guerra Hispano-americana que os os jornais norte-americanos investem na modernização das oficinas gráficas, adquirindo novas máquinas que utilizavam o processo de meio tom ampliando o uso de fotografias e surgem os primeiros fotojornalistas. Os jornais mais famosos desta época são o World, de Joseph Pulitzer e o New York Journal de Randolph Hearst. Estes jornais popularizaram o termo “jornalismo amarelo”, termo que servia para caracterizar um jornalismo sensacionalista e que nem sempre era muito bem visto, tal como não o eram os primeiros fotojornalista que, segundo Freund, eram detestados pelas suas ‘vítimas’ e tinham uma reputação deplorável.

    Durante  50 anos ser repórter fotográfico era mal visto, sendo considerado um trabalho menor e um fotógrafo era exarado como sendo só um simples criado. Este facto não impediu que o aumento do trabalho dos fotojornalistas tenha introduzido novas  formas de representação da realidade e novos crivos para leitura do mundo.

    Começam também a surgir, no início do século XX,  movimentos como o Photo Secession, criado por Edward Steichen (1879 – 1973) e Alfred Stieglitz (1864 – 1946), que procurava abrir caminhos mais realistas e precisos para a fotografia , emancipando-a do pictorialismo, tornando-se uma arte autônoma. As idéias deste grupo, difundidas através da revista Camera Work, procuravam impor uma estética modernista voltada para o elogio às cidades, a indústria e aos costumes não pitorescos.

    Em 1904 a fotografia passou ter presença nos jornais diários quando o Daily Mirror, na Inglaterra, começa a ilustrar as suas páginas apenas com fotografias, as quais deixam de ser usadas só como uma ilustração e passam a ser um elemento informativo. Existe um aumento do número de fotojornalistas, mas existem no período de anonimato de uma profissão sem prestígio profissional.

    A Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) veio permitir uma explosão no uso de fotografias pelos semanários e jornais diários, mas ainda não se pode falar de reportagens fotográficas, como o conhecemos actualmente. As imagens eram publicadas sem ter em conta o resultado global, tinham todas o mesmo tamanho e eram quase sempre planos gerais”.

    A ESCOLA ALEMÃ

    Durante a república de Weimar (1918-1933), na Alemanha, surge um grande número de revistas ilustradas onde nascem os “verdadeiros” fotojornalistas.

    Estas revistas, influenciadas pelas ideias da Bauhaus, articulavam o texto e as imagens de uma maneira nova, permitindo que se estabeleça aí a origem do moderno fotojornalismo. As revistas traziam a fotografia integrada ao texto, como parte de um projeto maior, muitas vezes assumindo um ponto de vista, esclarecendo o acontecimento.

    Existem também uma série de inovações tecnológicas que vão permitir uma maior qualidade do trabalho fotográfico.

    Em 1925 surge a Ermanoxx, máquina utilizada pelos primeiro repórteres fotográficos e em 1929 surge a Rolleiflex, precursora de inúmeras reflex de duas objectivas e filme de rolo. A Leica, que tinha sido criada em 1914, surge surge no início da década de 30 com um modelo com objetivas intercambiáveis.

    Estas câmaras desenvolvidas a partir da década de 30 na Alemanha alteram totalmente a relação do fotógrafo com o seu equipamento e com os sujeitos fotografados, pois permitiam a captura de imagens instantâneas e poses mais naturais.

    A Câmara fotográfica passa a ser uma extensão do olho do fotógrafo e a qualidade da fotografia deixa de ser avaliada com base na nitidez obtida, mas exclusivamente na habilidade e sensibilidade do fotógrafo.

    Para além das inovações tecnológicas existe também o surgimento de uma geração de repórteres fotográficos bem formado e com nível social elevado que permite ao fotojornalismo ultrapassa o carácter meramente ilustrativo passado a assumir lugar de destaque enquanto informação.

    Dos muitos fotógrafos que surgem neste ambiente notabiliza-se Erich Solomon, pai do moderno fotojornalismo. O seu estilo de fotografia chamado pela revista inglesa The Graphic de Candid Photography, caracterizava-se por obter uma fotografia quando quando os retratados não estavam percebendo sua intenção.

    O terceiro elemento fundamental para o desenvolvimento do fotojornalismo foram os editores como Kurt Korff, editor chefe da Berliner Illustrierte, e  Stefan Lorant, editor-chefe da Münchener Illustrierte Presse.  Eles criaram uma nova filosofia de se aproveitar a fotografia na imprensa, quebrando a velha visão da fotografia como mera ilustração. A grande inovação desses editores foi elaborar um projeto gráfico para as revistas combinando e as fotografias com o texto, com um complementando o outro e recorrendo sempre que possível ao foto-ensaio para o efeito desejado.

    A ascensão de Adolf Hitler em 1937 ao poder marcou o fim da experiência das revistas ilustradas alemã, muitos fotojornalistas foram perseguidos e emigraram para outros países como a França, Inglaterra e os Estados Unidos levando com eles as concepções do fotojornalismo alemão.

    Lucian Vogel cria em 1928 a revista VU em França, onde Robert Capa publicou em 1936 a foto que o faria famoso.

    Lorant fundou em 1938 a Picture Post, mas a publicação que revolucionou o fotojornalismo foi a revista Life, que que trazia fotografias dos melhores fotógrafos da época e surgiu em 1936 nos EUA . O seu estilo editorial foi seguido por outras revistas como a  Paris Match e Look.

    As revistas fotográficas transformaram definitivamente o fotojornalismo, sendo na década de 30 que se define o papel do fotojornalismo.

    A fotografia de Cartier-Bresson, torna-se um exemplo perfeito da aliança entre a arte e a informação imagética baseada na autoria. Já nos EUA reina entre os fotógrafos, a ideia de estabelecer a fotografia como um documento (caráter de verdade).

    Será ainda na década de 1930 que o fotojornalismo integra-se definitivamente às rotinas dos jornais norte-americanos, devido a diversos factores sociais, culturais e mudanças dos projetos gráficos da maioria dos jornais aliadas às modificações nos processos de edição fotográfica e às novas tecnologias empregadas.

    Uma das tecnologias que teve maior impacto foi o sistemas de telefoto, a partir de 1935, os quais permitiam a utilização das fotografias como meio eficaz de comunicação, mas causaram uma repetição de imagens nos diversos jornais e revistas.

    Nos anos que se seguem à segunda Guerra Mundial existe uma convergência entre o fotojornalismo praticado na Europa e o fotojornalismo norte-americano e começa a existir um poder crescente das agências de notícias que vão traçar um novo cenário para o fotojornalismo e transformar a fotografia num elemento preponderante na sociedade.

  • “Eu só quero obedecer enquanto for do meu interesse” – foi deste modo que o Anarquista Egoísta resumiu a sua ideologia política. Contudo, ele não é o único a padecer deste mal: o egoísmo.

    Muitas vezes as pessoas só obedecem e/ou respeitam por não ter alternativa, e  só lhes agradam sistemas mais “livres” porque desejam só terem de obedecer enquanto lhes apetecer.

  • No meio dos posts antigos, transferidos de outros blogs para aqui, encontrava-se uma reflexão feita por altura da minha despedida do Bizarro, enquanto editor e autor.

    Quando me “demiti” do cargo enviei uma carta aberta aos colaboradores explicando os motivos, o que serviu de base para o Pedro Mota realizar umas comparações no Jornal Notícias da Amadora entre o Bizarro e o projecto Aparte, do qual foi fundador e membro. Os links que eu tinha para os textos já não funcionam, pelo que não é possível ler na integras o seu conteúdo, mas existem duas citações que sobreviveram e continuam pertinentes.

    Salvo honrosas excepções, o autor português de banda desenhada é alguém que trabalha apenas para si próprio, e que tende a culpar o editor pela falta de sucesso comercial de livros sobre assuntos que só a ele interessam. É alguém capaz de jurar que tudo seria diferente se publicasse o seu trabalho em França, ou na Bélgica, ou nos Estados Unidos da América, mas que é incapaz de se afirmar em qualquer desses países, pois não consegue alcançar que para ser autor de BD é preciso mais do que apenas talento.

    Salvo honrosas excepções, o autor português de banda desenhada está apenas a um passo do aspirante a autor.

    Actualmente ao contrário de em 2003, altura em que os textos foram escritos, a internacionalização dos autores portugueses já é um realidade. O que permite aos autores que “emigram” dedicarem-se em exclusivo à banda desenhada. Mas, para aqueles que continuam a produzir só para o mercado interno continuam a ter de enfrentar um problema antigo, o qual ainda não foi resolvido apesar de, em termos de edição, a situação ter melhorado ao longo da última década.

    A banda desenhada faz-se a partir de uma base de mercado, e de uma aposta num sentido e numa continuidade.

    Feito o destaque ao mais relevante, deixem-me só salientar um aspecto que foi ignorado pelo Pedro, contrariamente ao APARTE o Bizarro enquanto projecto sobreviveu durante mais tempo e poderia ter continuado a sobreviver. Apesar do seu editor e fundador se ter afastado, existia um estrutura que permitiria manter o site em funcionamento, e serem encontradas soluções para o dinamizar e eventualmente rentabilizar. existia um núcleo de leitores significativos, o qual infelizmente se perdeu quando o site desapareceu, assim como todo o trabalho que lá estava publicado.

    A continuidade do Bizarro era algo que não dependia de mim, dependia dos colaboradores e de quem ficou à frente do projecto, e tenho pena que não tenha continuado, ou pelo menos permanecido uma memória do que foi feito. O Bizarro só sobreviveu durante mais de seis anos e consegui evoluir porque, essencialmente, era o projecto pessoal de uma pessoa. Só a partir do momento em que passou a ter edição digital é que o Bizarro começou a ter um núcleo de colaboradores regulares, e o mérito e as responsabilidades eram divididas.

    O Bizarro sobreviveu e poderia ter sobrevivido devido a um estranho paradoxo: qualquer projecto que vise a divulgação da banda desenhada nacional e dos autores nacionais, tem de ter como responsáveis pessoas que embora gostem de BD não sejam autores de BD.

    Este estranho paradoxo deve-se a um facto muito simples: qualquer autor de nacional só faz BD nos tempos livres, pois necessita de ter uma profissão para pagar as contas. É praticamente impossível que para além de produzir BD com regularidade e do seu trabalho diário, também consiga ter tempo para se ocupar de outros trabalhos, e assumindo as responsabilidades que qualquer projecto de carácter associativo exige. Tendo em conta este facto o autor terá de optar entre o processo criativo ou o trabalho burocrático.

    Foi esse o motivo do meu afastamento do cargo de editor, pretendia dedicar-me ao processo criativo, contudo derivado a circunstâncias fora do meu controlo, acabei por me afastar durante anos da mundo da banda desenhada. Mas naquela altura, a intenção era dedicar-me mais à criação de histórias e menos a tarefas burocráticas de edição e gestão de grupos de trabalho, estava saturado do esforço de ser autor/editor, em projectos não remunerados. Era um trabalho inglório e não me permitia fazer aquilo que realmente pretendia.

    Por isso é que continuo a salientar a que qualquer projecto que vise divulgar autores, tem de ter envolvidas pessoas que não sejam autores, mas gostem de BD e estejam disponíveis para dedicar algum do seu tempo a um projecto; e que, acima de tudo, tenham disponibilidade para assumir responsabilidades, as quais na maior parte das vezes implicam um trabalho árduo que poucos vêem e ainda menos reconhecem.

    A remuneração dos autores e de como se pode conceber projectos que tenham viabilidade (a médio e longo prazo) continua a ser um tópico fundamental para a BD nacional. Infelizmente continua a ser um dos tópicos que raramente são abordados em público, e menos ainda falando das questões mais melindrosas: tiragens, e outros detalhes técnicos.

    Contudo a situação hoje em dia é melhor do que à uma década, mas o mercado continua a ser muito débil.

  • Este artigo foi escrito Janeiro de 2007, e está obviamente desactualizado, é publicado aqui para referência futura. um dia ainda poderei voltar a a pegar nela para o refazer.

    Capítulo 01: PROPÓSITOS E CARTAS FORA DO BARALHO

    Após uma explosão editorial que estilhaçou todos os recordes de títulos de BD publicados em Portugal. O mercado nacional encontra-se agora num ponto em que parece caminhar para a implosão se for-mos pessimistas, ou para uma normalização entre a Oferta e a Procura, se formos um pouco mais realistas.

    Devido á inexistência de dados concretos para análise do mercado (em termos de vendas), este artigo é feito com base nos poucos números que foram transpirando ao longo dos anos. E tendo por base a minha vivência enquanto elemento desse “mercado” como comprador, autor e editor (de fanzines) há mais de uma década.

    Mais do que um balanço ou previsão do que será o futura da BD em Portugal neste ano, pretendo pura e simplesmente apresentar um análise imparcial da evolução do mercado Português e de como se chegou á presente situação.

    Foi durante a última década que o “mercado” como o conhecemos (re)surgiu e evoluiu.

    Antes de continuar existe um ponto que convêm esclarecer, no mercado actual os autores nacionais, são quase irrelevantes. Contra mim falo, como (pretenso) autor, mas esta é a triste realidade. A tiragem média de um álbum de sucesso é de 1,500 exemplares. Este facto torna inviável a sobrevivência do autor, trabalhando unicamente em BD, ou mesmo de conciliar a actividade de autor com uma actividade mais lucrativa e que pague as contas.

    A partir do momento em que é impossível permitir a um autor viver unicamente, ou tendo como uma fonte de rendimento o trabalho que faz na área da BD. O autor de BD passa a ser uma carta fora do baralho. Nenhuma editora pode contar com os autores, uma vez que eles não podem assegurar um produção regular, e nenhum autor pode contar com a editora, com o seu trabalho (como autor) para lhe proporcionar uma fonte de rendimento. É uma pescadinha de rabo na boca, o autor não admite interferências editoriais, nem o editor tem “poder” para as impor, uma vez que o autor trabalha em part-time; cria BD por hobby; faz BD pelo prazer de criar ou pela necessidade de se expressar. Resultado, o autor produz maioritariamente material que é entendido como alternativo, como material que não é comercial, incapaz de atrair o público, algumas vezes é verdade. Contudo também pode ser que o tema não interesse ao editor, contudo este como não pode encomendar um álbum que considere viável – ou dentro da sua predilecção – tem de se contentar com o que o autor quer exprimir, ou então compra uma série estrangeira, que considera viável, que lhe agrade e que na maioria dos casos, já provou que vende, diminuindo o risco do investimento.

    Derivado à melhoria dos meios de impressão, hoje em dia é possível editar um álbum com uma tiragem de 200 exemplares, (quase) com a mesma qualidade de um álbum profissional com tiragens de 1,000 exemplares ou mais.
    A evolução da tecnologia veio permitir que hoje seja (quase) impossível distinguir um álbum de um editora profissional de uma edição de autor. Em termos financeiros, não altera nada para o autor contudo, vem possibilitar uma maior visibilidade de projectos alternativos, que anteriormente estariam confinados á etiqueta de fanzine. O que ontem era logo identificado como fanzine derivado á qualidade de impressão, hoje pode aspirar a ser considerado um álbum/revista, mesmo tendo uma tiragem de 100 ou 200 exemplares.

    Após esclarecer este pequeno ponto, quero salientar que ao falar de BD nacional, estou a falar de álbuns publicados por editoras nacionais. Ao longo da última década e mesmo antes, 90% da banda desenhada publicada em Portugal, é BD traduzida, e é desse mercado que esta série de artigos aborda, sendo irrelevante fazer distinções entre autores portugueses e autores estrangeiros publicados em português.

    Este artigo pretende unicamente explicar como (re)surgiu e evoluiu o mercado nacional; quais os seus problemas actuais e como eles surgiram e não foram evitados.

    Capítulo 02: O Mercado: como ele (re)surgiu

    Em 1997 falar de um mercado de BD em Portugal era no mínimo um exagero!

    Falar de “mercado” de BD em Portugal, não é exactamente o mesmo que falar do “mercado” de BD em Espanha, França, Brasil, EUA e outros países. Há vários anos que a BD em Portugal, a “industria” da BD em Portugal é maioritariamente amadora, e feita de fogachos, de pequenas tentativas de publicar BD, geralmente feita por uns carolas que gostam de BD. Convém salientar que as editoras actualmente em activididade (Polvo, Devir, VitaminaBD) estavam a dar os primeiros passos há 10 anos atrás ou nem sequer existiam. A Asa na altura tinha parado de publicar BD por completo. Só retomando a publicação de BD em 2003. O colosso da BD nacional na altura era a Meribérica que entretanto faliu. Nos últimos 10 anos ainda foram surgindo e desaparecendo mais uma série de editoras. Na maioria dos casos são editoras a funcionar em regime de part-time. O facto de actualmente existirem mais editoras do que há uma década não significa que o mercado da BD tenha evoluído, em alguns casos até podemos dizer que regrediu. Hoje, do mesmo modo que em 1997, nenhuma editora se dá ao luxo de viver da BD que edita, aliás actualmente se tiverem lucro com o que editam até ficam contentes. Editores, tradutores e todos aqueles que de algum modo estão envolvidos na produção e edição da BD em Portugal, só trabalham na BD em part-time, geralmente tem outro trabalho ou editam outro tipo de produtos que dão lucro.

    Actualmente a situação em termos de quantidade e diversidade do material publicado, é melhor do que há 10 anos, permite até falar de um mercado, mas esse mercado é muito débil, em muitos casos é uma criança que ainda não sabe muito bem o que faz.

    Comparações e evoluções

    Uma década é muito tempo, e para mercados dinâmicos existem muitas alterações; convulsões, problemas que surgem, modas que aparecem e desaparecem; uma série de factores que condicionam a sua evolução. Mas em mercados dinâmicos, épocas em que se vende menos são compensadas por outras em que se vende mais, e como nestes mercados dinâmicos existem pessoas cujo ordenado provem da existência desse mesmo mercado, existe sempre um maior dinamismo em épocas de crise, uma vontade/necessidade de dar a volta a situações melindrosas, e a tentar evitar erros passados. Do mesmo modo que existe uma vontade e tentativa de captar novos públicos e de manter aquele que existe.

    Por mercado dinâmico estou a falar de países como Brasil, EUA, Japão, Espanha, e outros mais. Mercados em que existem editoras com várias décadas de existência, que sobreviveram a crises e modas, viveram épocas de grandes sucesso e outras de grandes falhanços, obviamente não existe a mínima comparação com Portugal em que há uma década o mercado era basicamente uma editora – a Meribérica.

    Os actuais intervenientes no mercado nacional não tinham surgido, ou estavam a dar os primeiros passos há 10 anos. Os que não desapareceram neste período encontram-se agora perante a sua primeira crise. Só esse factor por si próprio seria suficiente para não se fazer comparações com outros mercados, contudo existe um factor mais importante – não existem números. Quero com isto dizer que não sabemos quanto vendem os álbuns publicados, na melhor das hipóteses sabemos a tiragem, ou podemos ter uma ideia aproximada da tiragem, contudo aquilo que realmente interessa – as vendas, essas não sabemos.

    Ora os dados relativamente ao mercado francês ou norte-americano analisa três factores: vendas, tiragens e número de títulos publicados. Em Portugal único factor possível de contabilizar é o número de títulos publicados, o que por si só não permite saber qual é o estado de saúde do mercado. Apesar de poder haver alguns (poucos) pontos de contacto com outras realidades, na maioria dos casos as comparações com outros mercados são uma mera diversão para justificar falhanços próprios.

    A única verdade sobre as vendas de BD em Portugal actualmente é que se vende menos do que vendiam há uns 4 anos atrás. Mas a justificação para isso é muito simples, em 2002 começou a publicar-se um número de álbuns quase absurdo. Aumentou a oferta sem ter aumentado a procura, resultado, publica-se mais, mas cada álbum vende menos.

    Nada de mais, nada de novo! Basta ter em consideração que este facto era do conhecimento das editoras, deixem-me só relembrar umas declarações proferidas por José de Freitas por altura do FIBDA de 2003: “as vendas estão em queda livre, as tiragens cada vez mais pequenas, e os livros cada vez menos tempo em exposição (e portanto a vender ainda menos, numa espiral descendente)”.

    Para depois constatar, aquele feitio bem português, em que mais vale quebrar do que torcer: “finalmente há editoras a apostar numa oferta crescente para conquistar espaço e “fatia de mercado” mesmo perdendo dinheiro. Porque ninguém quer ser o primeiro a diminuir a sua produção. Isso implicaria perda de espaço e visibilidade comparado com a concorrência, o que ninguém quer”.

    Obviamente que existem outros factores para a “crise” do mercado nacional, mas convém salientar que o aumento de produção sem haver um real aumento de consumidores, foi algo que ainda hoje prejudica as editoras. A consequência mais visível foi a falência da Witloof; o desaparecimento da Booktree e prejuízos para as restantes editoras, as quais tem dificuldades em vender 1,500 exemplares de um álbum, existindo alguns casos em que as vendas não chegam sequer aos 500 exemplares.

    O problema da venda de BD em Portugal começa precisamente em 2002/2003 com o aumento desenfreado de edições. Um factor muito português que impede que se faça comparações com outros mercados. É nessa altura que os álbuns começam a dar prejuízo, e as perspectivas de ter lucro publicando BD começam a ficar mais diminutas.

    O mercado nacional, um mercado plural com diversas editoras só voltou a existir há poucos anos, depois de um longo período de hegemonia da Meribérica. Por isso hoje as editoras – “crianças” com menos de 10 anos – enfrentam a sua primeira crise.

    Agora o mercado da BD nacional encontra-se num ponto em que se adapta, evolui ou morre, voltando 10 anos atrás para uma situação em que só existe uma editora e umas tentativas esporádicas por parte outras. Ou muda.

    Este 8 ou 80 tipicamente português dificilmente acontecerá, porque a BD continua a vender e continuará a vender. Hoje em dia é mais fácil e económico publicar do que em 1997, devido á evolução tecnológica das gráficas. Contudo uma politica canibalista e autofágica por parte das editoras, pode conduzir uma situação em que não existe captação de novos leitores, e ainda se perde os actuais. O que tornará mais difícil a sua sobrevivência a médio e longo prazo.

    Capítulo 03: Problemas das distribuição

    O demónio da distribuição e o desaparecimento dos quiosques.

    01: no geral e nos quiosques

    A distribuição é o maior das editoras, porque é a distribuidora fica com a maior fatia do bolo. Nenhuma distribuidora se contenta com menos de 50% do preço de capa, chegando a pedirem 60%.

    Contudo, convém salientar que desconheço qual a percentagem da tiragem que é vendida pela distribuidora, e qual a vendida directamente pela editora.

    Uma vez que algumas editoras fazem distribuição directa para as FNAC e cadeias de livrarias como a Bertrand. Ao retirarem à distribuidora essa parte do negócio, as editoras aumentam (supostamente) os lucros, mas retiram ao distribuidor os principais pontos de venda, pelo menos teoricamente.

    É que em termos teóricos diz-se que as FNACs e as Bertrands são os maiores pontos de venda, chegando a representar sozinhas 75% das vendas de um livro.

    Em que parte este factor é causa para um aumento da percentagem das distribuidoras é algo que desconheço. Causa ou consequência? Caberá a quem possui números afirmá-lo. Este pequeno pormenor não é exclusivo das editoras de BD, é prática comum no reino da edição (suicida) que se pratica em Portugal.

    Voltando ao essencial, a distribuição/venda de BD é feita em livrarias ou em quiosques. Cada um deste pontos do venda tem os seus problemas específicos, embora a percentagem do distribuidor se mantenha no mínimo dos 50% do preço de capa. Contudo cada um destes pontos de venda tem as suas particularidades e convém ser analisados em separados.

    02 – Os quiosques

    Hoje em dia é quase impossível encontrar BD nos quiosques, em 1997 havia um oferta significativa, embora a maioria fosse de super-heróis; revistas da Disney ou Turma da Mónica. A maioria dessa BD era importada do Brasil, sobras das editoras brasileiras. As editoras portuguesas deixaram de apostar nos quiosques há vários anos devido a questões financeiras. Um título para ser vendido nos quiosque, tem de ter uma tiragem de pelo menos 3000 exemplares. Publicar uma revista mensal implica uma logística completamente diferente da publicação de um álbum, requer a existência e uma equipa permanente que assegure a publicação da revista a tempo e horas, se em vez de uma revista se publicarem mais, então os custos fixos com pessoal aumentam exponencialmente. Para tornar a situação ainda mais complicada é necessário vender mais de 2000 exemplares no mínimo, mesmo assim a editora irá ficar com sobras na ordem dos 1000 exemplares, que ficam a ocupar espaço em armazém ou têm de ser destruídas. Não é exactamente um investimento muito atractivo, especialmente quando as revistas de BD em Portugal são as únicas edições de quiosque incapaz de captar investimento publicitário, para ajudar a pagar as contas.

    Como um álbum, para ser vendido numa livraria, pode ter uma tiragem a partir dos 500 exemplares, as revistas desapareceram para darem lugar aos álbuns, que são publicações que implicam um risco e um investimento menor; não requerem uma equipa fixa para a sua produção, o que os torna ainda mais apelativos para pequenas editoras, ou para quem pretenda ter uma. Contudo apesar de em 1997 não existir nenhuma editora portuguesa a editar revistas (com excepção de alguns títulos da Disney), era possível encontrar uma quantidade e variedade de títulos significativa.

    A Editora Abril enviava mensalmente os títulos de super-heróis e ocasionalmente outros títulos, como Graphic Novels ou o The Spirit de Will Eisner. Depois tínhamos outras editoras brasileiras a enviarem as suas sobras, embora fossem um pouco mais irregulares. Deste modo era possível encontrar nos quiosques revistas alternativas como a Chiclete Com Banana, Tex e outros fumetti, chegaram inclusive a serem distribuídas algumas mangas. Não existiam revistas portuguesas, mas as sobras do Brasil tomaram conta dos quiosques e permitiram que nesses pontos de venda a BD não desaparece-se.

    Quando a Abril/Controljornal iniciou a publicação em Portugal de super-heróis, as sobras do Brasil deixaram de ser distribuídas, e as edições da Abril/Controljornal duraram pouco tempo fazendo com que a BD desaparece-se dos quiosques.

    Antes da Devir começar a editar, e mesmo quando esta iniciou a sua actividade, ainda surgiram algumas edições brasileiras. Contudo estas edições foram “proibidas” ou “banidas” para evitar “concorrência desleal”.

    Como as edições nacionais para os quiosques foram sempre inferiores em número de títulos, e mais irregulares que as edições brasileiras começou a haver menos revistas de BD nos quiosques, como passou a haver menos edições o espaço que estava reservado para a BD, foi diminuindo, como chegamos ao ponto de haver UMA revista de BD a ser publicada de 3 em 3 meses ou mais, o dono/empregado do quiosque passou a dar menos importância á BD do que já dava.

    Para piorar a situação começaram a surgir outras publicações que vendem mais, dão mais lucro e são regulares. A BD perdeu lugar nas bancas e agora dificilmente vai recuperar. Posso estar enganado, mas em breve se poderá constatar quando as edições da Turma da Mónica (re)começarem a ser distribuídas, e caso venham mais alguns dos títulos que a Panini edita.

    A principal razão para a BD ter perdido espaço nos quiosques foi porque deixou de haver BD para vender nesses locais, fosse ela publicada em Portugal ou na conchichina. Ao contrário de outros países em que a BD de banca/quiosques tem vindo a perder terreno devido só ao binómio: surgimento de outros produtos mais rentáveis, e um investimento dos editores no mercado de livrarias/lojas da especialidade, em Portugal , a BD foi perdendo espaço nos quiosques essencialmente a partir do momento em que a Abril/Controljornal começou a publicar super-heróis, e em que todas as edições brasileiras que eram para ser distribuídas em Portugal começaram a ser “barradas” para evitar “concorrência desleal”.

    Resultado, hoje nem há (quase nenhuma) BD Brasileira nos quiosque, mas também não há Portuguesa. Se voltar a existir a curto prazo BD nesses locais, será devido ao regresso das edições brasileiras, porque não existe nenhuma editora nacional com capacidade financeira para investir nesse mercado.

    Chegamos agora á situação irónica em que aqueles que “barraram” a vinda de material brasileiro, serem os mesmo que vão agora importá-lo, para ver se conseguem recuperar um espaço que perderam por culpa própria! Só que agora esse espaço está ocupado por outro tipo de publicações que foram surgindo, e saturam completamente o mercado.

    Entretanto, podem ir comentando que eu não me importo!

    02 – A selva das livrarias – presente e futuro, para o bem e para o mal.

    Era suposto eu ter escrito um último capítulo sobre a situação da BD nas livrarias, contudo ou perdi o ficheiro ou não cheguei sequer a escrever. É algo que um dia sou capaz de voltar a pegar.

    Convém de salientar que a situação nos quiosque entretanto mudou com o surgimento das revista da Disney editadas pela Goody, o regresso em 2007 das edições da brasileira da Panini (Marvel, DC e Turma da Mônica) e as colecções de BD públicadas com os jornais.

    Nove anos depois a situação da BD é mais saudável do que era em 2007, em particular porque existem editoras que conseguiram resistir a tempos mais agrestes, e existem outros projectos que entretanto foram surgindo.

  • Desde a sua existência que o aCalopsia tem sofrido várias modificações a nível da sua apresentação gráfica.

    As mudanças de design do aCalopsia não se têm limitado a ser uma questão estética, é também uma questão a nível de apresentação e destaque dos artigos publicados, para além de funcionalidade que permitem o site ter. Algumas detalhes são pormenores pequenos, sem relevância a curto prazo, outros são relevantes a longo prazo, e alguns são fundamentais para uma apresentação mais apelativa e eficaz dos conteúdos.

    No final de Julho o aCalopsia passou a utilizar o tema Canard  da Atomattic, mas como esse tema estava a causar alguns problemas passou por dois dois temas provisórios até passar chegar ao Write da Themehaus, o qual se arrisca a ser o tema definitivo após sofrer algumas modificações.

    O Write é um tema simples, eficaz, e que se enquadra dentro do meu gosto estético e no aspecto gráfico que pretendo para o site, também possui um bom número de funcionalidades e flexibilidade, para um tema gratuito. Actualmente a versão que está a ser usado no aCalopsia é um tema-filho, no qual estou a trabalhar e que ainda está longe de estar concluído. Apesar de ainda existir muito trabalho para efectuar, não é provável que já não exista uma mudança radical no aspecto do aCalopsia.

    O site está a estabilizar nas sua rubricas e funcionalidades, de acordo com aquelas que são as necessidade e possibilidades do aCalopsia, enquanto projecto de divulgação.

    A nível gráfico: apresentação dos textos e “livro de estilo” do aCalopsia, não deverão existir grandes modificações. A maioria das modificações que irá sofrer é sobretudo a nível de pormenores.

    Actualmente estou é divido entre o Write e o Independent Publisher, o qual também é tem bastante qualidade, e é versátil como fica visível no Descubra o Mundo, apesar de aí terem assassinado um pouco o tema.

    O meu grande problema, neste momento é mesmo a minha falta de conhecimentos de PHP e CSS, o principal motivo porque andava a evitar desenvolver mesmo um tema para o site. Para disso, existe um problema de falta de tempo. Tendo conta estes factos, se alguém que possua esses conhecimentos (de PHP e CSS) quiser colaborar no desenvolvimento do tema final do aCalopsia, é só avisar!

    Eu agradeço a ajuda que for possível.

  • Emitido em 2007 pela RTP2, programa televisivo Ver BD é um documentário em cinco episódios, sobre a banda desenhada portuguesa que começou recentemente a ser disponibilizado online.

    O segundo episódio, onde se aborda a história da BD portuguesa dos anos 60 até à (então) actualidade, apresentou uma surpresa bizarra. Eu não tinha visto o programa a quando da sua emissão em 2007 e fiquei realmente surpreso pela fugaz aparição do Bizarro nº7. Para além de eu ficar surpreso sempre que trabalho meus surgem mencionados, os fanzines foi algo só mencionado ao de leve, e com pouco tempo de antena, até nas capas que foram mostradas.

  • Encerrei outros espaços que existiam dispersos pela internet e adicionei algo desse conteúdo a este site, o queal vai passar a ter um conteúdo mais abrangente, deixando de ser só um blogue da chancela editorial Sanktio Comix e passando a ser um blogue mais pessoal com pessoal com comentários fora do âmbito da BD.

    A minha ideia original para este espaço era ele servir de site para uma chancela editorial, apresentando os trabalhos que foram desenvolvidos e os que estavam em curso a a nível de BD. Contudo como surgiu o aCalopsia, os projectos criativos foram ficando de lado, uma vez que tentar montar um site informativo tornou-se num trabalho exaustivo que deixou pouco tempo para outras coisas, em particular por ser um projecto não remunerado.

    Voltar atrás e rever quais os posts que tinha feito num blogue pessoal acabou por servir para revisitar o passado. Contudo a maioria dessa informação já era completamente inútil e não se justificava ter existência autónoma, em particular por na maioria dos casos serem links notícias que já desapareceram da net.

    Fica assim encerrado mais um capítulo do passado, é mais um para a colecção de cadáveres digitais, sendo que alguns dos defuntos até foram usurpados, como é o caso do primeiro blogue que criei, no longínquo ano de 2003, o Albatroz

    É um daqueles pormenores curiosos, mas um pouco irrelevantes. O passado pertence ao passado, e agora estou é a configurar o presente para construir o futuro.